sábado, 1 de abril de 2017

Refletindo sobre as falsas verdades.

Olá caro leitor, neste primeiro de abril, dia em que foi absorvida a tradição do April fools' Day no Brasil como Dia da Mentira nós brasileiros que conhecemos bem essa ferramenta, seja fazendo uso dela ou sendo alvo da mesma, em todas as esferas sociais e ocasiões possíveis, nos divertimos com brincadeiras apenas pelo breve prazer inocente ou não de enganar alguém.

Ironicamente a mentira, e ser mentiroso, entre muitos Heathens é visto como algo desonesto e pouco apreciado, uma questão que não é fruto recente no nosso meio, ela permeia as várias ramificações do paganismo nórdico e remonta desde os tempos em que os sábios escreviam nas sagas conselhos sobre o como as falsas palavras e os comportamentos dúbios poderiam prejudicar o friðr de um indivíduo ou de uma família ou mesmo uma tribo, mas toda moeda tem dois lados.

Não nos é desconhecido que em mais de uma história é a astúcia, o disfarce, o engodo e a mentira que salvam as divindades se situações complexas ou as fazem alcançar seus objetivos. Podemos lembrar de Óðinn em seus vários disfarces para andar entre homens e visitar as terras dos Jötnar (Gigantes), como ocorro no debate entre o Deus Caolho se passa por Gagnráðr e busca obter informações de Vafþrúðnir em Vafþrúðnismál na Edda Poética. Em outra história sabemos como ele  assumindo o disfarce de Bölverk, engana o fazendeiro Baugi, irmão de Suttungr, para ter acesso ao a montanha onde está o hidromel poético que Suttungr guardava para si, na mesma história novamente Óðinn se deita com Gunnlöd e rouba dela o hidromel que ela guardava fugindo na forma de uma águia.

Temos também o poderoso deus Þórr que, apesar de não ser conhecido por sua inteligência ou sagacidade ou mesmo paciência, em Alvíssmál engana o anão Alvíss em um confronto de sabedoria onde o preço a mão da filha do Deus do Trovão, possivelmente se tratando de Þrúðr. Confronto este que se desenrola até o amanhecer e impede que o pobre anão consiga se casar com ela pelo mesmo se tornar pedra após a luz do sol tocá-lo ao amanhecer.

E temos Loki é claro, que despensa comentários e que erroneamente algumas pessoas atribuem o primeiro de Abril a ele. Muitas vezes ajudando as divindades de Ásgarðr com suas mentiras e trapaças e por outras vezes as complicando com seus atos de motivações escusas, Loki é de longe considerado o maior mentiroso e trapaceiro entre os Deuses e talvez até entre todas as criaturas de Yggdrasil. Ironicamente até Loki é trapaceado nas histórias por outro Loki, fato muito pouco lembrado...

No Gylfaginning presente na Edda prosaica Loki esta acompanhando Þórr que também é acompanhado por seu escravo e companheiro Þjálfi, irmão de Röskva, e os três se dirigem para as terras de Útgarðr onde no caminho ao pararem para descansar dormem na luva de um Jötunn chamado Skrýmir, Útgarða-Loki disfarçado, que depois de roubar a comida de Þórr é atacado em seu sono pelo furioso deus sem muito sucesso, pois o mesmo os iludiu se escondendo atrás de uma montanha. Seguindo frustrados e chegando na fortaleza de Útgarða-Loki eles se deparam como uma série de desafios aparentemente impossíveis de serem vencidos mas que ridicularizam os viajantes. Nessa história Þórr não consegue terminar de beber um chifre por ele estar ligado ao mar, não consegue erguer um gato pelo gato ser a serpente Jörmungandr e não consegue vencer uma idosa chamada Elli em uma briga pela mesma ser a própria velhice. Loki nada percebe e não consegue comer mais do que seu rival Logi que é a personificação do fogo e por fim Þjálfi que perder três vezes uma corrida contra alguém chamado Hugi, a personificação do pensamento. Mas mesmo com as derrotas Útgarða-Loki deixa eles partirem por ficar abismado com a determinação de cada um e a força de Þórr.

Então mesmo o mais esperto e mentiroso de todos, pode e foi enganado, ou como popularmente sabemos: "O problema de todo malandro é achar que ninguém é mais malandro do que ele". Tendo levantado essas histórias e reflexões fica mais claro que nem sempre a mentira é uma ferramenta descartável, muitas vezes se provando uma arma afiada que se usada com sagacidade consegue muito mais que uma espada, por mais nobre que não pareça ser essa arma. Sabedoria e esperteza devem permanecer próximas tal como os "irmãos" Óðinn e Loki. Então mesmo aquilo que pode não parecer louvável e nobre e honrado uma hora, em outra pode se tornar vital mesmo para manter o seu friðr.

Afinal como é dito no próprio Hávamál 42: 

"Vin sínum
skal maðr vinr vera
ok gjalda gjǫf við gjǫf
hlátr við hlátri
skyli hǫlðar taka
en lausung við lygi"

"Para seu amigo
um homem deve ser um amigo
e retribuir um presente com um presente.
Um riso com um riso
os homens devem se valer
e falsidade por uma mentira."

Ficam essas reflexões e espero que possa ter acrescentado de alguma forma, e nesse primeiro de Abril informo que vou retomar as atividades do Blog, talvez não semanalmente, mas na medida do possível, tendo em vista as inúmeras mudanças que Loki trouxe para a minha vida e as quais sou grato, tanto em vantagens quanto em adversidades. A todos um ótimo 1º de Abril e um ótimo fim de semana. Far Vel!

- Heiðið Hjarta.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Entendendo o que somos - Ferth.

Bom dia nobres visitantes, após uma pausa que foi necessária por muitos motivos (fiquei sem computador, acidentei o joelho, tive que correr com outras coisas da minha vida, etc), vamos dar continuidade as postagens que visam explicar mais detalhadamente o conjunto de elementos que compõem o complexo corpo espiritual que temos dentro da visão do paganismo nórdico.

Na postagem anterior abordamos sobre o Hamr que é a forma energética, as vezes chamada ectoplásmica, nossa imagem astral que nos da um corpo permitindo as viagens e mantendo o complexo mental-espiritual coeso para essas experiências, e o Athem que liga o corpo ao nosso espírito como um cordão umbilical alimentando e distribuindo a energia necessária ao todo.

Agora vamos ao termo anglo-saxão denominado Ferth. Ele está contido no Harmr e corresponde aos elementos não físicos do complexo corpo-alma que nos compõem, exceto pela Fylgja (acompanhante), esta parte apesar nos seguir durante a vida pode viajar  para vários lugares enquanto ainda estamos vivos, não morre conosco quando nossa vida material se encerra, porém a Fylgja será estudada em momento futuro.

Ferth é a parte abstrata, o nosso todo psicológico que alguns até podem identificar em outras tradições como corpo mental, ele é composto pelas partes que dão suas principais funções a nossa mente sendo três essas divisões internas: a memória (ON Münr/ OE Mynd), o pensamento (ON Hügr/ OE Hyge) e as emoções (ON Móðr/ OE Mód). A Memória (Münr) se dividira em Gemynd e o Orþanc e o Pensamento (Hügr) por sua vez se dividirá em Angit, Sefa e Wit, que vamos abordar agora.

A Memória (Münr) executa a função de armazenar todas as informações, conhecimentos e experiências adquiridas por um indivíduo em sua mente, bem como informações, conhecimentos e as experiências passadas para ele através de seus parentes, ela é a ferramenta pela qual poderemos recorrer a um histórico de nossos feitos para nos ajudar a refletir sobre nossas ações em assuntos presentes e futuros. Dentro do Münr encontramos duas divisões Gemynd e Orþanc.

Gemynd, por vezes encontrará o termo por Min (OE Myne), engloba as memórias adquiridas no curso atual vida de um indivíduo, são memórias oriundas de experiências pessoais, é a parte da nossa alma que nos traz o conhecimento e a sabedoria daquilo que vivemos e aprendemos em nossa história.

Orþanc pode ser entendido como o pensamento primordial, serve como uma memória bem menos racional e bem mais profunda, pois não lida com as experiências absorvidas pelo indivíduo nesta vida corrente. Como uma herança, é a parte da memória que acessa os instintos, pensamentos inatos, memórias ancestrais, vindas de existências anteriores, seja do indivíduo ou de seus ancestrais, servindo como um pensamento tribal ou inconsciente coletivo. Essa parte da alma está ligada a Fylgja do indivíduo e ao seu Ørlög, os débitos e recompensas pelas decisões convertidas em ação ou mesmo omissão no passado, tanto individual quanto tribal, essa memória contém os feitos, aprendizados e erros dos parentes naturais, bem como dos parentes adotados ligados a Fylgja do indivíduo pelos laços tribais. Entendida a engrenagem das memórias vamos ao complexo do pensamento.

O Pensamento (Hügr) é a parte da nossa alma que é responsável por entrar em contato com o mundo que nos cerca e processar essa informação com o intuito de torná-la conhecimento e através das nossas experiências adquirir sabedoria, é a manifestação intelectual da nossa vontade, conduzindo nossas ações de forma racional e segura.

Angit (OE Andget) é a parte que permite a alma coletar as experiências ao redor do indivíduo emanadas pelo mundo que o cerca, podemos entender como os clássicos cinco sentidos, esses contatos vem de forma simples, nos permitindo processar esses pensamentos em informações através do Sefa. Se por um lado através dos sentidos temos a capacidade de perceber a realidade em elementos separados de forma que nos possibilita entender a realidade que nos cerca, por outro lado essa mesma simplicidade limita nosso entendimento do universo uma vez que essa experiência vem filtrada, nos tornando limitados em percepção porém funcionais na realidade.

Sefa é onde as experiências e pensamentos coletados pelo Angit são processados, lá ocorre a manipulação desse coletivo de pensamentos e experiências que por sua vez vem a se tornar informação que são utilizadas para a tomada de decisões na vida do indivíduo, resultando a aquisição de conhecimento ou sabedoria, é aqui onde a consciência trabalha.

Wit diferente do Angit não trabalha com as experiências imediatas do mundo externo que cercam o indivíduo, pelo contrário, ele busca dentro do indivíduo as memórias armazenadas no Gemynd e no Orþanc do mesmo e os leva até o Sefa para que tomem parte no processo de organização de ideias como ocorre na informação trazida pelo Angit.

Com isso concluímos a parte relacionada a mente racional, as formas de aquisição de informação, seu armazenamento e sua utilização dentro da alma através do complexo mental. Na próxima postagem vamos falar sobre a "contra-parte" do Hügr e seu pensamento lógico, que não é a memória (Münr), vamos nos aprofundar na parte que envolve os desejos, impulsos e sentimentos da alma, o lado ilógico, vamos estudar os elementos Mod, Wod e Will (vontade), sua finalidade e como atuam. Até a próxima postagem. Far vel!

- Heiðið Hjarta.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Entendendo o que somos - Hamr e Athem.

Boa tarde nobres visitantes, a pouco tempo foi publicado um texto abordando sobre a composição do corpo dentro do paradigma da espiritualidade heathen, pois bem, vamos começar a entender melhor separadamente essa composição. Tal estudo se faz necessário pois ele amplia a sua percepção de mundo e com isso também aumenta suas possibilidades de interação e entendimento com esse mundo permitindo assim experiências valiosas que venham a adicionar em seu caminho, que antes poderiam passar desapercebidas ou sem o devido entendimento. Essa informação também é útil para aqueles que se interessam por um contato prático com a magia escandinava, mas sempre vale ressaltar que apesar da popularidade pelo interesse em práticas de magia, nem todos os indivíduos tinham inclinação ou sequer tempo para isso. Numa sociedade tão pragmática tais assuntos apesar de terem seu devido espaço junto a sociedade, as vezes à margem dela até, não eram o cerne do dia a dia dos camponeses, guerreiros e nobres, uma fazenda não se planta com magia, logo você não tem obrigação de praticá -la se não tiver o interesse.

A composição apresentada no Texto, não o texto em si, Hamr - Mapeamento da Alma foi em parte desenvolvida pelo ocultista e runologista Stephen Edred Flowers (de pseudônimo Edred Thorsson), que apesar de sua grande contribuição através de suas pesquisas tomou caminhos diferentes da religião com o decorrer do tempo e o avanço de seus estudos tendendo mais ao ocultismo do que a fé.

O mapeamento que ele faz do corpo é apresentado em seu livro A book of Troth capítulo 17 onde apresenta um diagrama da alma. Este mesmo trabalho foi replicado, e não apenas esta parte, no livro que muitos tiveram ou terão contato de Mirella Faur em seu Mistérios Nórdicos, publicação que é alvo de críticas por muitos leitores pela quantidade excessiva da opinião pessoal que a autora deposita sobre a própria produção acadêmica através de sua visão de mundo, chegando a deturpar algumas interpretações e misturar procedimentos wiccanos com a fé nórdica. Em que pese isso, ainda é uma porta de entrada para muitos, afinal ninguém nasce sabendo tudo e aprender a peneirar faz parte do caminho.

É interessante ressaltar também que apesar dos termos específicos a mecânica de várias partes que compõem o complexo espirito-material não é exclusiva do paganismo germânico ou escandinavo, vários povos do mundo possuem entendimento similar em vários pontos com suas devidas divergências, quase como aquelas similaridades que observamos sobre construções de pirâmides ao redor do mundo, a mesma lenda em várias culturas com ligeiras alterações, etc. E isso se dá por um fato que posso entender que ultrapassa a barreira da nossa fé, afinal ainda que existam seus vários reinos e o devido direcionamento dos espíritos, o mundo espiritual ainda é um só assim como o mundo material (não entremos na metafísica dos universos paralelos, rs).

A ideia de algo mais complexo e útil que um corpo e uma alma, nos é estranho graças a séculos de imposição da crença católica cristã e suas subsequentes reformas sobre o ocidente, que limita nosso entendimento dando ao ser humano breve e de vida única o mundo material e a recompensa ou a punição eterna no mundo espiritual. Porém nós sabemos que entre Miðgarðr e o Valhalla existem muito mais coisas que o hidromel e um skald podem explicar. Com uma visão de mundo espiritual mais complexa onde convivemos com nossas escolhas e as escolhas feitas antes de nós, onde convivemos com um culto e uma busca de contato com os ancestrais e onde somos cercados pelos mais variados tipos de entidades, em uma fé que não negava a existência de outros deuses, é de se esperar no mínimo que nós sejamos mais que um corpo e um espírito vestindo esse corpo.

Devemos entender que em termos que não estão no paganismo, você é um corpo físico que habita o plano material, um corpo astral que pode se projetar para fora de seu corpo físico e obter experiências no mundo que o cerca, um corpo mental que vai produzir e registrar informações, conhecimento e sentimentos e por fim um corpo espiritual que vai lidar tanto com as decisões de seus ancestrais, quanto as suas próprias decisões. E numa analogia básica, assim como um foguete espacial que vai deixando para trás partes de si para alcançar um objetivo, você também com o tempo vai deixar para trás seu corpo físico, seu corpo astral, um fantasma das suas memórias e levará consigo aquilo que aprendeu, aquilo que sentiu e aquilo que decidiu seja lá para onde você for depois das suas "estações" se esgotarem no plano material. Assim através desta analogia você percebe o quão mais complexo e completo você é, entendido isso vamos analisar as partes e suas interações.

No texto que publiquei é dado o conceito de que Hamr é a forma e Athem é o nosso duplo etéreo, porem este conceito está ligeiramente equivocado. Hamr (forma) é um termo que era atribuído sim a alma, cujo qual dentro de si existem outros vários elementos que serão explicados nas próximas postagens, mantendo o todo psíquico-espiritual coeso. Como a roupa de um astronauta essa matéria energética que você pode ter como o paralelo de uma forma de ectoplasma ou ainda um corpo astral é que nos permite ter experiências fora do corpo e até mesmo ser vista como uma aparição, podemos dizer que é o barco que mantem a tripulação junta. Dentro deste barco o Hamr vai conter a psique (Ferth) e suas divisões (Hügr, Münr e Móðr) e as subdivisões do Hügr (Angit e Sefa) e as subdivisões do Münr (Gemynd e o Orþanc) que estudaremos em postagens futuras. Este Hamr é de fato nosso corpo astral/ectoplasma, sendo acompanhado por um elemento externo chamado Fylgja, uma entidade que nos acompanha ligando nosso destino a nossa sorte e que sobrevive ao nosso ciclo de vida e morte, por vezes você encontrará o termo Fetch que nos remete ao folclore irlandês que trata de um duplo espectral de um ser vivo (como um ou fantasma ou um Doppelgänger de alguém).

No caso do Athem este é o sopro da vida, um dos presentes dado pelos Deuses no ato da criação da humanidade também de denominação Önð, pelo qual é mais conhecido. O princípio imprescindível que anima a vida, que liga o corpo material ao corpo espiritual, inexistente em mortos-vivos, equivalendo de certo modo ao fio de prata de outras tradições religiosas. O Athem é alimentado com as energias adquiridas no mundo material como aquilo que comemos, a água que bebemos e o ar que respiramos, sendo enviados ao corpo para a manter suas funções vitais. Quando o tempo no corpo se finda então a alma está livre para partir e deixar o corpo devolver através de sua decomposição aquilo que da terra um dia tomou, porém se o procedimento de ruptura entre o corpo físico e o Hamr falhar e o Athem não se dissolver então você terá o caso que pode vir a resultar em um Draugr (morto-vivo), por isso em casos suspeitos o melhor é queimar o cadáver, mas antes por favor certifique-se que que a pessoa está realmente morta, sem matá-la no processo, rs.

Bom ainda há muito mais para ser explorado sobre o complexo ser que somos e como as partes trabalham juntas, mas esta é a primeira parte e as explicações vão seguir na medida da disponibilidade. Trata-se de um tema cheio de detalhes e que deve ser digerido parcialmente para melhor entendimento. Espero que tenham gostado e se interessado mais pelo assunto, na próxima semana continuamos estudando a psique (Ferth). Far vel!

- Heiðið Hjarta.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Primeiro de Abril - Em dia com Loki e as meias verdades.

Bom dia nobre leitores, atendendo a pedidos e evitando uma catástrofe de desinformação generalizada e o que é pior nos dias de hoje... compartilhada, vamos deixar bem claro que o April Fools' Day (Nosso famoso e divertido Dia da Mentira) não é um dia ligado, dedicado ou qualquer outra coisa voltada a Loki (só se for na sua cabeça ai o problema não é meu), ainda que ele seja uma entidade divina que faça uso das suas meias verdades. A princípio uma reflexão sobre a data, ela tem sua origem em datas distintas mas falando em mundo ocidental temos a celebração Romana chamada Hilaria, comemorada no Equinócio de Primavera, em honra a Cybele (Magna Mater) a Grande Mãe dos Romanos, que na realidade originalmente não é romana, mas isso é um problema dos romanos.

Em algo mais próximo temos na idade média um desentendimento no cenário cívico-religioso francês. Nesta época ocorreu uma confusão na França durante o reinado de Carlos IX. Antes da adoção do calendário gregoriano o ano novo era celebrado no dia 25 de março na maior parte das cidades europeias, porém em algumas regiões da França se dava no dia 01 de Abril e era uma festividade que pegava a semana inteira (imagina só o caos se fizéssemos uma semana de mentiras ao invés de um dia). Com a adoção do calendário gregoriano o ano novo passava a ser dia 01 de janeiro porém a alteração não foi abraçada unanimemente pelo povo francês, que ao resistirem a mudança mantiveram a data de início do ano em 01 de abril. 

Logo para encerrar a confusão no ano de 1564 através do Édito de Roussillon o Rei Carlos IX da França determina que o ano novo francês se dá no primeiro dia de Janeiro de cada ano, mas a medida só foi aplicada em 1567. Foi então que os católicos que adotaram o calendário e a nova data, através de zombarias em meio a sociedade como convites para festas que não existiam e presentes que não visavam agradar os presenteados, humilhavam e depreciavam os demais franceses que resistiam a esta nova data, por fim ela foi gradativamente sendo abandonada como início do ano e o entendimento foi unificado para 01 de Janeiro.

Também se atribui uma ligação ao Festim dos Tolos (Feast of Fools - festum fatuorum, festum stultorum), datado da época medieval onde se dá brevemente poder, dignidade e impunidade aos de posição subordinada para fazerem zombarias dos de cargo elevado, por vezes como crítica social ou como mero entretenimento, obviamente nos remetendo a clássica figura do Bobo da Corte. 

Através dessas ideias alguns indivíduos que se identificam como Lokeanos (pessoas que têm forte afinidade com Loki, seja em uma faceta ou em todas de sua personalidade, seja seguindo o como uma divindade e sua divindade principal ou ainda representando parte de seu comportamento dentro da comunidade heathen pelos mais variados motivos) passaram a determinar este dia como um dia de reverência para Loki. Nos Estados Unidos onde a prática se iniciou quando a Ásatrú ganhou força por lá, eles associaram esse "feriado" americano a Loki, por meio de blót e zombarias, entretanto essa data não guarda nenhuma evidência histórica na sociedade heathen original, assim como outros ritos, crenças e práticas do Ásatrú também são coisa "recente". 

Então a princípio classificar esse dia para Loki é ilógico, a menos que isso venha de alguma convicção pessoal, mesmo porque ele não é o único a usar de meias verdades entre os deuses como é registrado nas Eddas. Por exemplo temos como outros "mentirosos" como Óðinn e seus disfarces, ou como no caso de Þórr e o anão Alvíss que tenta ter a mão da filha de Þórr em casamento mas acaba sendo enganado pelo mesmo. Astúcia e esperteza nem sempre devem ser confundidas com as típicas mentiras da sociedade latina, que careciam de fortes figuras de Trapaceiros que pudessem ensinar por meios menos "convencionais", ou ainda com uma moralidade frágil, a esperteza muito mais do que uma arma é também uma ferramenta de sobrevivência. Então um bom 1º de Abril ou dia da Mentira, abusem do humor mas usem a sabedoria e deixem o pobre Loki em paz ele já têm problemas demais. Far Vel!

- Heiðið Hjarta.

sábado, 26 de março de 2016

Hamr – Mapeamento da Alma

Boa Tarde nobres leitores, o texto que segue já circulou por alguns blogs e sites na Internet e inclusive se encontra em alguns grupos e páginas de redes sociais. Ele foi inicialmente disponibilizado graças a um antigo heathen chamado Wagner Cruz que tinha um portal chamado O Troth que muito me ajudou em minhas buscas e pesquisas quando levei meus estudos sobre a espiritualidade mais a sério junto com demais fontes da internet e listas de discussões do Yahoo. Esses conceitos que seguem são elementos que fazem parte do nosso ser junto ao universo da nossa espiritualidade e assim como os egípcios antigos que cultuavam vários deuses, podemos observar que o nosso corpo espiritual é multifacetado, havendo componentes que são oriundos de nós e outros que nos são herdados e por sua vez outros que deixaremos de herança, além do mais há também entidades que nos acompanham na complementação de nossa existência exercendo efeitos fundamentais para auxiliar a manter nossa contínua sobrevivência e evolução. Trata-se de um texto que considero importante e entendo que seja bom que venha a ser observado novamente.

Manterei o texto como na forma original sem adições minhas ou correções ortográficas no que tange a variação de palavras de língua estrangeira na intenção de que cada indivíduo busque uma pesquisa própria dos termos e que leve a questionamentos que possam evoluir seu entendimento do conteúdo. Nas próximas postagens, conforme minha disponibilidade, tentarei dedicar uma atenção a cada aspecto abordado dentro deste texto, separadamente ou conjuntamente. Boa leitura e espero que o que segue desperte uma maior curiosidade em vocês, Far Vel!

- Heiðið Hjarta.

Hamr – Mapeamento da Alma


A compreensão da alma consiste na fabulosa tarefa de auto desvendar você mesmo, para, então, olhar através dos véus ilusórios da realidade (o qual nossa alma, nosso ego, nosso pensamento sempre filtra e cria sua própria perspectiva de mundo). Além do sentido de espiritualidade que envolve a leitura e compreensão da alma, também podemos sintetizar através do estudo e da experimentação da retaliação (do separar de todas as partes da alma) da inexistente individualidade egoísta que comumente acreditamos possuir. Não somos centros de nada, nem somos como que deuses. Somos apenas uma manifestação da natureza, um feito da vontade do mundo em suprir suas próprias necessidades biológicas.

A alma nada mais é do que o somatório de atributos etéreos, físicos, dons, habilidades e outras características que às vezes são unicamente nossas e outras vezes são compartilhadas por nós com outros seres, etc.

Este mesmo estudo sobre as subdivisões do ser é fruto da reunião de conceitos aferidos por durante séculos pelos povos germânicos de grupos diversos. Se alguns chamavam a alma de Hamr (forma) ou se outro acreditava somente na Fylgja (acompanhante), para nós, pesquisadores religiosos, hoje, é indiferente, pois interessa-nos somente o objetivo e a síntese desse sistema. Através da analogia sistemática dos conceitos espirituais de diversas tribos germânicas podemos partir do pressuposto que existem diversos atributos que formam o que provavelmente acreditamos ser a alma, o espírito, consciência, inteligência ou como melhor aprouver.

Assim, interligando seus atributos como uma rede de elementos necessários entre si, tiramos em um resultado que é o que chamaremos (por um motivo de identificação cultural e religiosa) de Hamr, que segundo os germanos significava “forma”, e esses povos usavam o termo para se referir ao seu espírito.
   
A ideia de “nada” era incabível entre os nórdicos. Todo espaço era ocupado e não havia uma divisão entre o mundo dos vivos e o dos mortos, ou com qualquer outro mundo. Todos os mundos eram acessíveis de mútuo convívio. Nada de dimensões astrais ou planetas, etc. Nada disso. Os mortos conviviam no mesmo mundo que os vivos, às vezes iam para outros lugares mais longes como o Hel, Asgard, etc. A morte nunca era tida como uma aniquilação absoluta, mas sim como uma passagem: a consciência, a alma transcendia seu espaço físico e passava a ocupar um lugar de tutora do clã e auxiliar do mesmo. O renascimento poderia existir, bem como poderia não ocorrer dependendo de determinadas condições como vontade e outras imposições espirituais. O nome de um ancestral, quando perpetuado dentro da família, era tido como o renascimento daquele ancestral em um novo corpo, uma forma de chamar sua presença à vida novamente.

Usaremos nesse estudo de várias nomenclaturas e elementos diferentes que aparecem através dos mitos, sagas e outras referências históricas sobre as crenças espirituais dos povos nórdicos.

Hamr pode ser decomposta em oito essências principais (obviamente suas subdivisões são muitas). São elas AthemFerthFylgjaLikhMágnMódr e Önd. Descreverei eles abaixo:

1 – Athem – O corpo etéreo, nossa manifestação no mundo espiritual; é a forma e aparência fantasmagórica. É o nosso Athem que enviamos através das experiências mágicas, xamânicas, como o Seidr e o Spae; é também o Athem que vemos nas aparições, assim como é ele que se junta à Caçada Selvagem de Odin, depois de nossa morte, nos invernos. Quando morremos, o Athem é separado do corpo e aguarda a chegada da Caçada Selvagem (que o levará junto para as hostes de almas). Quando ele não se separa do nosso corpo, fica preso em Midgard por algum motivo, ele é chamado de Draukkar (que quer dizer “morto-vivo” ou “vampiro”, “zumbi”, etc.), uma vez que irá vagar preso neste mundo por motivos diversos, que podem variar da vingança até o desconhecimento da morte.
   
2 – Ferth – Mente. É um dos presentes dos deuses no ato da criação; significa “mente/razão”. É aquilo que rege as cabeça e tudo aquilo é regido por ela. Refere-se principalmente ao pensamento, à razão e à vontade. É onde ficam armazenados nossos pensamentos, nosso raciocínio, nossas experiências, nosso saber, nossa memória.  O Ferth divide-se em duas partes: Hügr e Münr.

2.1 – Hügr – Pensamento. É o intelecto ativo, a vontade, o pensamento. O Hügr é uma das mais fortes expressões da alma, pois ele é o pensamento ativo, nossa mente no volante das ações. Através do Hügr podemos ultrapassar fronteiras físicas ao desconhecido e, por isso mesmo, pelo poder que a compreensão pode gerar, ele nos conecta ao mundo. Todo o mundo está interligado através do Hügr, assim como todos os seres estão conectados através do Fjör. A crença pagã diz ainda que o próprio mundo possuía um espírito próprio, também chamado de Hügr. O Hügr pode ser compreendido se dividido em duas partes: Angit e Sefa.

2.1.1 – Angit – São seus sentidos e percepções. Os portais do corpo por onde entra a informação e por onde podemos perceber o mundo. Funcionam como um filtro de informações. Se eles não existissem, ficaríamos loucos com tanta informação que receberíamos e não conseguiríamos associá-las com destreza. A percepção se dá pelo cheiro, gosto, tato, visão e audição. É essa percepção a principal causa de nossa equivocada e individual percepção da realidade. Nunca perceberemos a realidade e a verdade, mas sim apenas uma parcela dela, ou seja, apenas aquilo que podemos conceber através do que conhecemos e dentro dos limites de nossas simples percepções.

2.1.2 – Sefa – É o raciocínio imediato, sagacidade. Depois que o Angit percebe o mundo, o Sefa é responsável por associar os pensamentos uns com outros e assim gerar a informação. É a percepção do mundo já realizado. Se, por exemplo, percebemos através do Angit que ao tomar água ela nos queima a boca, então é o Sefa que lhe diz que ela está quente, porque associa a informação da queimadura com a informação do calor, transformando assim tudo em um pensamento: “a água está quente, devo evitá-la”. O Sefa funcionará desde os níveis físicos mais simples até níveis efêmeros mais complexos, da consciência à incosciência.

2.2 – Münr – Memória. Pois se todo pensamento do Hügr precisa ser armazenado, então é no Münr que encontrará sua lotação. O Münr é compreendido melhor quando dividido em duas partes: Gemynd e Vítand.

2.2.1 – Gemynd – Memória Individual. É a memória de nossa própria vida, onde ficam guardados nossos próprios pensamentos, nosso passado, nossas lembranças e inclusive aquelas que esquecemos. Nada escapa à mente. É onde ficam armazenados nossos orlogs, e é por isso que o Münr sempre está associado ao Orthanc (que veremos logo adiante o que é). Enquanto o Gemynd é a memória individual de apenas esta existência e nascimento, o Orthanc recolhe as memórias e heranças de existências passadas, bem como o passado dos ancestrais.

2.2.2 – Vítand – Sabedoria. Através de nossas próprias experiências, deduzimos muitas coisas sobre a vida que nos ajuda a viver e a melhorar enquanto indivíduos. A reunião de todas as conclusões do Sefa fica armazenada na memória para se tornar Sabedoria. 
   
3 – Fylgja – Acompanhante. É a entidade guardiã de nosso clã, da família, de nós mesmos. Podemos tanto herdá-la, como adotá-la. Mas ninguém existe sem a Fylgja. Ela pode ser compreendida como nossos instintos mais selvagens e subconscientes. Em sua fúria e desejo por vida, a Fylgja usará de todos os artifícios para tentar perpetuar o clã e a família, como manda as leis da natureza (pois a Fylgja é a representação de toda a natureza dentro de apenas um ser) e também usará de sua desesperada vontade de viver para se focar em aspectos mundos inatos ao homem, como o desejo constante de sexo, o desconhecimento dos benefícios das virtudes ou a ira entorpecente. É independente de nossa vontade e ao mesmo tempo é o nosso reflexo selvagem. A Fylgja é movida por instintos que beiram a bestialidade (não é a toa que é representada por um aspecto animal ou por um humano em bestialidade). Se não controlada, moderada ou disciplinada, a Fylgja poderá tomar a frente da vontade do indivíduo, acarretando vícios para este e posteriormente a decadência do mesmo. O sexo será um desejo constante, da mesma maneira, uma vez que a Fylgja buscará incessantemente questões de sobrevivência em todos os aspectos da vida, colocando a paixão ardente acima da sanidade do próprio ser. O medo da morte lhe é desconhecido, pois não sabe o que é morrer, mas saberá instintivamente quando a morte se aproxima e irá associar isso com a dor, e por isso, na tentativa de afastar toda dor, ela lutará de todas as formas, inclusive criando ilusões sobre como o indivíduo perceberá a realidade (por beirar a bestialidade, deixar a Fylgja tomar a vontade significa se entregar à ignorância e ao sofrimento posterior). Sua tática de defesa sempre será a ira, a ignorância ou repúdio, que acontecerão através de “explosões”, buscando sempre romper com a harmonia que o homem construiu para sua alma. Esta é uma visão bastante pessimista da Fylgja, mas é o que ela nos representa em sua mais profunda intimidade. Os povos germânicos acreditavam que ela habitava a nossa sombra, e por isso nosso seguia ou nos guiava. Mas, nem de todo a Fylgja é algo ruim, uma vez que ela é responsável por estarmos aqui vivendo e nos ajudará em muitos momentos de dificuldade como uma forma de defesa, ataque ou cura imediata para questões diversas. Desde que controlada, a Fylgja será extremamente útil. Nos auxiliará em questões de magia, assim como também poderá nos ensinar a viver através de pequenas lições. Como um animal que habita nossa alma, devemos domá-la e saber como usar dela para o bem, ao invés de deixar que ela use-nos em prol de suas próprias necessidades naturais. Se deixarmos que isso ocorra, que ela nos tome a alma, então seremos apenas bestas às margens da sociedade ordinária. A Fylgja pode ser tanto representada visualmente como um animal de poder, como uma besta, como um ser humano tocado por bestialidade ou selvageria, ou mesmo poderá ser simbolizada por algum espírito antepassado. Para compreender a Fylgja melhor, podemos também dizer que ela está associada a outras três essências: Hamingja, Dísir e Aettarfylgja.

3.1 – Hamingja – Hamr + Fylgja. Forma acompanhante. É a fusão de nossa alma com nossa Fylgja. Usada em trabalhos xamânicos, é útil ao transe, permitindo que ela tome controle de uma parcela de nossa vontade, e assim possamos utilizar de seus atributos mágicos, como a cura, a visão, a viagem, a força, a ira, a rapidez, a lucidez, etc. É esta a forma que os Berserker ou Ulfedhnar usavam em batalha, mantendo uma parcela de seus espíritos sempre conectada com sua Fylgja. Esta crença de que saímos do corpo e que tomamos outras formas talvez remeta ao contato dos escandinavos com os lapões. Há menções de formas específicas além da Hamingja como o homem transformado em lobo (Hamrammr, Rammaukin, Eigi Einhamr).

3.2 – Dísir – Ancestrais Femininas. Dísir é o coro espiritual que assiste ao clã. São as ancestrais mulheres que morreram e agora regem pela sobrevivência e proteção das famílias, tribo, etc. Em geral, nos referimos a esses espíritos como Dísir, ou Idísir (singular Dís ou Idísa), mas elas podem assumir outros aspectos, em outros contextos. É dito que podem ser chamadas também de Walkyrjor (Valquírias) ou ainda de Norn (apesar de muitos defenderem que as Valquírias e as Nornes compunham um grupo diferenciado de divindades). São Walkyrjor quando devem reger assuntos de grande importância como a morte, a vitória na batalha e outros assuntos relacionados a Odin. E são chamadas de as três Norn quando precisam reger aspectos do destino, como os orlogs por exemplo. Mas esta é uma concepção individual de como encarar a existência das Dísir. Pessoalmente, eu encaro as Dísir, as Walkyrjor e as Nornor como corpos espirituais diferentes.

3.3 – Aettarfylgja – Familiar. É o espírito tutelar da família, aquele que é transmitido através do sangue, obrigatoriamente. Este não pode ser escolhido, uma vez que ele é herdado pela família, por seus ancestrais. Acompanhará a sucessão familiar e a protegerá contra seu extermínio. A Aettarfylgja é a uma Fylgja mais complexa com uma forma efêmera que pode se dividir em Fylgjas “menores” e individuais para cada pessoa do clã.

4 – Lá – Sangue. O Lá é o sangue, o calor humano, o veículo de vida e poder. Na mitologia escandinava é o presente de Lódur a Askr e Embla, o primeiro casal humano. É através do Lá que há a transmissão da vida, de poderes e de todo tipo de herança física e espiritual. Os orlogs são transmitidos através do sangue e são então chamados de Orthanc (herança). Quando o sacrifício é feito, é o Lá quem dá o poder para tornar a divindade forte (os sacrifícios eram feitos para louvar e fortalecer o poder de uma determinada divindade). O mesmo acontece com o talhar das runas com o próprio sangue, pois é ali que é transferido o seu poder para as runas e então elas ganham “vida”. O Lá pode ser decomposto em três partes: Ásdr, Fjör (Wyrd) e Orthanc.

4.1 – Ásdr – É o papiro secreto que a Norn Skuld vela, onde está escrito o dia do nascimento e o dia da morte de cada ser. O Ásdr está no sangue porque é lá que acontece toda troca de orlogs entre o ser e seu meio e assim que homens e mulheres podem aumentar ou encurtar seu tempo de vida em Midgard. O Ásdr não controla apenas o tempo que viveremos aqui, mas também pode controlar nossa qualidade de vida, uma vez que as Nornor (distribuindo os orlogs) podem alterar nossa configuração social de vida. É através do Ásdr que todos os orlogs fazem-se acontecer em nossa vida. No ásdr está escrito o dia do nascimento, da morte e a se vida será levada com qualidade ou com decadência.

4.2 – Fjör – ou Wyrd. Destino. O destino nunca é visto como algo fatídico, mas sim como algo previsível dadas certas condições passadas. Nosso Fjör segue uma direção já formulada por nossos ancestrais e também por nosso próprio passado. Nossas heranças como dons, talentos, bênçãos, maldições, qualidades, defeitos, e também nossas atitudes como desonras e glórias determinam como será o Fjör. Esse mesmo Fjör está em constante processo de adaptação à nossas possibilidades uma vez que ele é o gerador dos orlogs. Um orlog é uma conseqüência, uma reação natural do mundo contra qualquer ação. Toda ação possui uma reação, e essa reação é chamada de Orlog (é aquilo que o mundo nos devolve). A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Os orlogs podem ser bons ou ruins e estamos constantemente recebendo-s o tempo todo. O Fjör é descrito nos mitos como um fio escarlate que a qualquer momento poderá ser rompido bastante que Skuld diga o dia da morte do homem. O destino é inexorável e não importa o caminho que tomamos, o que nos foi legado é nosso por direito, sem fuga.

4.3 – Orthanc – ou Ódal. Herança. Todos os orlogs e atributos de nossos antepassados, ancestrais e progenitores são passados ao nosso ser, pois não somos nós mesmos, somos apenas frutos da vontade alheia; somos a continuação dos antigos. Não escolhemos quem seremos, isto nos é imposto. Não escolhemos nascer humano, não escolhemos nosso nome, nem escolhemos nossa configuração biológica. Tampouco escolhemos nossa própria sorte de vida que iremos levar. Tudo é herdado. Se o ser humano existe é porque houve em algum momento uma vontade transcendental que desse tal impulso. E se possuímos nomes como Helga ou Erik é simplesmente porque nossos pais assim o desejaram. Igualmente, se somos saudáveis, ou doentes, se somos inteligentes ou tolos, se feios ou belos, se ricos ou pobres, é tudo uma questão de herança e destino (isso quer dizer independe de nossa vontade). Essa verdade sobre a realidade, de que recebemos uma complexa herança ao nascer é chamada de Orthanc. As glórias e maldições de nossos ancestrais também serão as nossas. Por isso a união familiar e o sentimento de fraternidade em um clã é tão importante para todos. Para ser compreendido em detalhes, o Orthanc precisa ser decomposto em seis partes: Orlog, Forlog, Mjovutdr, Auna, Gaefa e Afl Okkat.

4.3.1 – Orlog – Sob a Lei. Lei fixada nas origens. Esta lei é herdada por todos os seres e ela diz que toda ação terá uma reação. Toda destino retorna a sua origem. Esta é a lei básica dos mundos, a que nada escapa. Cada ação passada é responsável é originária de um orlog, uma conseqüência arbitrária e ordinária.

4.3.2 – Forlog – Lei fixada no avanço. Na tentativa de alterar nosso Ásdr, de melhorar nosso Fjör, podemos lutar contra o orlog e alterar nosso destino. O Forlog então é a força que geramos para mover nosso destino em outra direção diferente daquela que nos é herdada. Algumas ações excepcionais podem gerar Forlogs.

4.3.3 – Mjovutdr – Destino que está fixado desde as origens. O Mjovutdr é fardo da família. Aquilo que, desde a sua origem, as pessoas estão fadadas a carregar consigo por todas as gerações, aquilo que é imutável, como fato de sermos humanos, ou o fato de termos determinadas doenças, ou de que por toda uma geração muitos nasceram gênios, etc. É difícil decifrar o Mjovutdr, pois somente um ancião que conheça bem o Orthanc da família poderia enunciar o que faz parte ou não do Mjovutdr. O Mjovutdr pode ser composto por alguns Gaefas (ver a frente).

4.3.4 – Auna – Destino como concessão feita pelos Deuses. A vontade dos deuses é suprema e assim como transformaram árvores em seres humanos, também podem nos aniquilar. É dito que os deuses também são regidos pelas mesmas leis de destino que somos, mas são interminavelmente mais poderosos que a nossa vontade. Apesar dos deuses não interferirem na vontade dos homens, alguns deles podem ceder ao capricho e alterar a natureza das coisas. Ou ainda podem fomentar um destino completamente diferente daquele que o Fjör pretende formar, independente de como é o Orthanc. Mesmo que não faça parte do Orthanc de uma pessoa ela ter nascido como o dom para a arte, ali houve uma vontade extraordinária que alterou a predisposição das coisas, concedendo assim um Auna.

4.3.5 – Gaefa – Presente. O Gaefa é ligado ao ser durante o nascimento, pois é ali que as Dísir, ou Norn, presenteiam o novo ser com seus talentos, dons e atributos. Um Gaefa é sempre especial e todo ser possui pelo menos um. O Gaefa não poderá ser diferente daquele de sua família, mesmo que destacado, a não ser que haja um Auna contra isso. Pode ser considerado um Gaefa a beleza, a saúde, a força, a inteligência, o talento para a arte, a perícia com as mãos, etc (também há Gaefa de cunho mágico). O Gaefa se confunde com o Mjovutdr por serem ambos heranças ancestrais. Para desmistificar isso podemos dizer que os Gaefas são partes menores do Mjovutdr, se este último pudesse ser decomposto.

4.3.6 – Afl Okkat – Nossa força. É o somatório das glórias conquistadas por uma família, tribo ou clã que juntos se transformam em força efêmera e propiciam a sorte, a prosperidade e a vitória em muitas questões da vida, inclusive garantindo a imortalidade da alma entre os heróis. Esse dote faz parte do Orthanc porque é uma herança dos ancestrais a todas suas gerações. Todo membro de um clã sempre contribui para fortalecer ou enfraquecer o Aett Afl Okkat (A força do clã).

5 – Likh – Corpo. Obviamente é o corpo que faz parte da Hamr e não o contrário, uma vez que somos a forma pensada pela vontade dos deuses. O Likh é a configuração física, corporal que assumimos para que a Hamr possa habitar. A saúde do Likh é de suma importância para o bem estar da Hamr. Está unido à Hamr através do Mágn.

6 – Mágn – ou Meginn. Força, Poder. Está relacionado à saúde, e a força física. É o Mágn que mantém a alma presa ao Likh e a mantém ali longe do perecimento. Se ele pudesse ser visto seria brilhante e ardente como o fogo, semelhante à “aura” que os orientais pregam.

7 – Módr – ou Máttr. Bravura, Coragem. O Módr é uma emoção adormecida que em certas horas de descontrole, ira, ódio, loucura ou paixão desperta elevando o ser acima de sua própria capacidade. Poderíamos dizer que o Módr eleva o nível de adrenalina no corpo de tal maneira que superaríamos nossa própria capacidade de força. Por isso tal bravura, pode ser literalmente traduzida como “ira”. Nas Eddas dize-se que quando Thor lutou contra a serpente de Midgard, ele invocou o seu Jöttunmódr (Ira de Gigante ou Bravura de Gigante) para poder elevar a gigantesca serpente acima de si, conjurando para si sua herança jottun por parte de mãe.
     
8 – Önd/Od – Respiração/Inspiração Divina. Em uma das Eddas, Önd é um dos presentes dos deuses, o que foi ofertado por Odin ao primeiro casal de humanos. Através da respiração concebemos a vida e sem ela não vivemos. Através da respiração nos comunicamos também como o mundo exterior, uma vez que inalamos coisas para dentro de si. Pode ser dito que o önd é o sopro divino, a última parte da alma e o elemento necessário para que haja vida. É o önd que nos diferencia dos seres mortos, dos fantasmas, etc. Quando o önd se desfaz, nós morremos. Por ser a respiração o ato de atrair para dentro de nós a força dos deuses é dita ainda que é a inspiração divina (Od). Em outra Edda ela é chamada de Od, uma força soprada por Ódin aos homens, que lhes dá atributos extraordinários para o hedonismo e o prazer, como a poesia, a música, a paixão, a ira, a risada, etc. O Önd/Od é a parte mais complexa de se compreender por ser um atributo ao mesmo tempo efêmero (inspiração divina) e físico (respiração). Diz-se que o Od permeia todas as coisas e podemos respirá-los quando bem quisermos desde que tenhamos consciência disso.

  
Juntamente com nossa Hamr também anda, lado a lado, o Frith que é a paz, mas não a paz no sentido da guerra, mas sim a paz no sentido da ordem, da felicidade, da tranqüilidade, do bem-estar do kindred. Talvez este seja nosso objetivo consciente em vida, atingir o Frith. A meu ver não há outro sentido senão buscarmos o Frith e estarmos satisfeitos com nosso Ásdr. Frith e Ásdr são como irmãos.
  
Existem três fontes que geram friths, e são elas: Kenship (parentesco), Healldream (“alegrias do salão”, que são os atos de lealdade, entre duas partes) e Frithyards (que é o relacionamento do humano com suas divindades). O relacionamento social entre os seres humanos é a principal fonte de Frith, mas não a única. A individualidade e a solidão também sabem mostrar o Frith através da temperança e da disciplina.
  
O Kenship, é a principal fonte de Frith, nossa família, nosso clã, nosso irmãos, pais, avós, primos, esposas e maridos, o Sippa em si, são as coisas mais importantes em vida para nós e por isso precisamos estar em paz com eles, protegê-los, guiá-los no Ritta (Lei Cósmica) e assim alcançar a felicidade e a paz. Sippa é a principal fonte de Frith, que é a família. Ritta é a lei cósmica do universo que fala como devemos perceber a realidade como apenas um ponto de vista e sobre nossa condição humana de lutar contra o sofrimento.

O Healldream se refere aos atos de lealdade entre um líder e seu povo, entre um mentor e um aprendiz, entre um senhor e seu servo, entre um vassalo e um suserano, entre um Jarl e um Karl, entre um amante e sua parceira(o). A lealdade garante a amizade, a confiança, a honra, a bravura e por isso faz aumentar nosso Ásdr, e logo gera Frith.

E finalmente o Frithyards que se refere ao relacionamento que uma pessoa têm com os seres divinos e vice-versa. Crer e cultuar uma divindade traz paz, segurança e respostas para perguntas universalmente questionáveis, e as divindades se agradam disso provendo fartura, fertilidade e paz, o que também é fonte de Frith.

- Texto original de Wagner Cruz disponibilizado no antigo portal O Troth.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Mas aonde você quer chegar?

Bom dia nobres leitores. No último texto fizemos uma breve análise sobre quem foi e quem é Óðinn observando as suas mudanças e as características da sua evolução dessas mudanças no decorrer da sua participação junto aos Æsir, e claro quem ele será não cabe a nós, mas somente a ele e ao destino decidir. Refletindo sobre sua trajetória o observo como um bom exemplo do caminho que percorremos, sobre quem fomos, quem somos, quem queremos ser e quem de fato seremos, dentro e fora da nossa espiritualidade, seja em um dos vários desmembramentos religiosos desta espiritualidade ou em nenhum deles. Então ainda que de heathen para heathen, de família para família e de kindred para kindred as prioridades sejam diferentes, uma coisa todos temos em comum, um ciclo de anseios marcados por objetivos a seguir, um começo, um meio e um fim, tal como na natureza que nos cerca não somos diferentes.

Em nossa natureza é comum desejarmos a busca por prosperidade continuamente em nossas vidas e por isso temos a necessidade de pontuar objetivos, entender que haverá obstáculos entre eles e ao alcançarmos encontramo-nos em um estado de espírito, mesmo que breve, de alegria pelo sucesso obtido, claro quando dá tudo certo. Porém por vezes nos vemos diante de certos desafios que nos impedem de agir, ou que a princípio pelo espanto do inesperado acreditamos ser impossível ou inviável de seguir em frente, nos fazendo cair num conformismo derrotista e enchendo o venenoso copo do ceticismo dia após dia.

Por vezes você entenderá que é maçante e difícil estudar esse ou aquele tema, que ter acesso a esse ou aquele livro pode parecer difícil, que a opinião descabida desse ou daquele heathen pode parecer a maioria te desmotivando pois você não quer ser esta maioria, que este ou aquele trabalho que você acredita acrescentar na espiritualidade recebe críticas nada construtivas ou tentam ainda sabotar ou mesmo ofuscar seu esforço, isso quando você não é mal interpretado. A impressão num desespero final chega a ser que esta ou aquela, se não todas as divindades te abandonaram, pois bem, não é por ai.

Nós sempre enfrentaremos adversidades enquanto vivos, e poucas pistas tenho de que novas adversidades não serão colocadas pelo destino ou resultadas por nossos atos ou de terceiros depois disso. E exatamente diante dessas adversidades que teremos que observar a situação atentamente e encontrar nesse labirinto o nosso caminho rumo a saída que é a solução. São em momentos de crise, pessoal ou não, que nós temos de observar o por que tal situação está ocorrendo, principalmente se ela é recorrente em nossas vidas ou não, e o que deve ser feito para sanar esse problema, por vezes trata-se de algo simples e óbvio, mas por vezes parece ser necessário se afastar da situação e tomar par si um tempo para observar melhor os fatos.

Se afastar de uma leitura, de um trabalho, de um meio com opiniões estranhas a sua forma de pensar, nada disso está errado, não é desistir de uma guerra, ou deixar se vencer por um obstáculo, mas entender que você ainda não tem todos os elementos necessários para seguir em frente e alcançar seu objetivo, talvez uma leitura prévia de um texto ou um livro, analisar o público alvo do seu trabalho e a divulgação dele, ou ainda buscar observar o comportamento de outros heathens que não tem as opiniões que te desagradam, seriam ótimas formas de te incentivar e fazer você reconhecer que não se trata de um problema sem solução, ou que as divindades se afastaram de você. Agora se ao se deparar com essa situação você optar pelo desânimo, então você escolheu a derrota, você se afastou as divindades e você deixa um obstáculo e amarga a sua tristeza por escolha própria.

Muitos heathens se desmotivam em algum momento de sua trilha, isso culminando até em alguns casos no abandono da fé ou se tornando mero participante nominal por um simples motivo, falta de um objetivo. Sem adversidade não há superação e sem superação não há vitória e sem vitória não há progresso. Essa cômoda estagnação na fé com o tempo vai te desgastar e fará você abandoná-la, não se trata de sempre ter uma nova meta, você não tem que mudar o mundo (nada de errado também se assim o quiser), talvez manter uma meta seja já algo bom o suficiente como por exemplo sempre executar os seus sacrifícios no tempo certo/possível sem deixar de fazê-los, sempre ter uma leitura em andamento, sempre estar trocando informações com os mais novos, ou buscando elas com os mais velhos no caminho.

Quando um kindred por exemplo não tem um objetivo definido eles deixam de olhar para o horizonte e começam a olhar para os lados, as imperfeições que antes não incomodavam começam a ganhar destaque uns nos outros e os indivíduos que antes trabalhavam em prol de uma harmonia coletiva, agora se vêem vítimas de constantes julgamentos uns dos outros, coisas que estavam longe de ser uma prioridade ou coisas que as vezes compete apenas ao indivíduo resolver, tudo isso ocorrendo por qual motivo? Falta de um objetivo.

Então entenda que um barco perdido sem rumo no oceano do acaso está vulnerável a toda sorte no mar da vida e o marinheiro não pode reclamar se está muito tempo sem ver terra firme ou se vive em constantes tempestades, os Æsir nada tem a ver com isso. É ter coragem e sabedoria para enfrentar o mal tempo e depois aproveitar os bons ventos. Não podemos ganhar todas as brigas, mas se nos conhecermos bem, saberemos quais podemos comprar, e aquela briga que antes era impossível agora só é um pequeno contra tempo, pois você cresceu e se tornou maior que tudo isso.

Nossa fé depende basicamente de nós, da nossa vontade de nos conhecermos, de aceitarmos que precisamos mudar e que vamos mudar, de nos ajudar na medida em que podemos fazendo aquilo que sabemos ou podemos para ajudar uns aos outros, saber observar as maçãs podres que podem estragar todo o resto e por fim lembrar que para que haja uma próxima colheita, temos que plantar agora, nosso trabalho é para as gerações futuras que um dia serão gratas a nós, como nós somos gratos a alguém, espero que tenha sido uma boa reflexão e uma boa leitura e isso tenha te ajudado de alguma forma. Mãos a obra, bom fim de semana, até semana que vem e Far Vel!

- Heiðið Hjarta.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Óðinn - Sobre loucura e lucidez. (Revisado)

Boa tarde nobres leitores, hoje seguirei com a revisão dos antigos textos que havia publicado no finado Perturbardo (um minuto de silêncio), assim como tudo na vida, até a informação muda e o que se tem por verdade também. A medida que se caminha numa trilha seu horizonte se amplia e normalmente as opiniões de ontem não serão mais as de hoje, que também podem vir a se aprimorar amanhã, então fazer uma revisão do que se tinha por certo a anos atrás é necessário, seguiremos com as divindades e agora vamos falar, da melhor forma possível mas nunca esgotando o tema principalmente sendo ele, do irmão de Loki, ou do pai de todos Óðinn.

A princípio vamos apontar basicamente as suas principais características. Ele é descendente de Buri que não é um Jötunn, e tem como pai Borr e como mãe Bestla, essa que por sinal é filha do gigante Bölþorn, logo fruto do primeiro caso relatado de miscigenação (segura essa puro sangue). Sua primeira participação nos mitos do universo nórdico é como um guerreiro travando a primeira batalha que resulta na destruição do gigante primordial Ymir, auxiliado por seus irmãos Vili e Vé, fazendo da carcaça do gigante o mundo de Midgarðr para a humanidade e dos vermes que saiam de seu cadáver os deuses deram origem aos anões que habitam as rochas bem como a terra (acredito que esse ponto possa ser a chave para a interpretação da origem de anões e elfos também, uma vez que os deuses em Ýdalir dão a Freyr o domínio sobre Álfheim, como posso te dar lago que não está sob minha posse ou que eu não tenha feito? Mas isso é apenas uma posição pessoal, falaremos disso em outra oportunidade) voltando ao assunto Óðinn

Temos Asagrim como o chefe tribal em Ásgarðr na posição de líder dos Æsir, Junto de seus irmãos Hœnir e Lóðurr (por vezes mencionados como Vili e Vé) o Aldaföðr protagoniza a criação da humanidade através de Askr e Embla, o que justifica a figura de pai de todos nós. Além da extensa relação de filhos que tem, sendo eles basicamente no atual senso comum Bragi, Baldr, Höðr, Víðarr, Váli, Hermóðr e Þórr. 

Engraçado reparar que enquanto Freyr sendo um deus da fertilidade não têm filhos, Alföðr teria de no mínimo sete filhos até a uma lista bem mais extensa, como por exemplo no caso dos fundadores das dinastias que dão origem aos líderes tribais e consequentemente as casas reais, fora as paternidades contestadas como é o caso do corajoso Týr que sabemos ser filho do jötunn não tão corajoso assim Hymir, ou mesmo de Yngvi-Freyr que sabemos ser filho de Njörðr. Resumindo ele é o Gengis Khan dos deuses ou o Mr. Catra de Ásgarðr, caso você infelizmente não conheça o Gengis Khan.

Como uma divindade de guerras, vitórias e conquistas, Sigtýr, entra em guerra com os Vanir após Gullveig ser queimada três vezes por adentrar o salão dos Aesir, esta guerra se resolve num armistício com uma troca de reféns que por fim culmina na conclusão das divindades que habitam Ásgarðr e solidificam o panteão nórdico. Como líder guerreiro era comumente invocado para se ter vitória nas batalhas e seu papel de trazer a vitória com algum custo permanece o mesmo até hoje, sendo o domínio de Valtýr sobre a morte (afinal guerras levam a elas) evidente através dos seus guerreiros de elite Einherjar e através das Valkyrjur que escolhem entre os mortos quem serão estes guerreiros que vão habitar o tão desejado salão Valhöll, além dele próprio ter determinado para Hel a filha de Loki um lugar de mesmo nome e também de ser o líder da Caçada Selvagem.

Como uma divindade que se transforma ao longo do seu percurso, Hangatýr morre como guerreiro para renascer como sábio ao sacrificar a si mesmo, na busca pela sabedoria das runas, seu conhecimento de necromancia também permite que adquira informações sobre o futuro com uma Völva e que permita que a cabeça de Mímir possa dar a ele parte da sabedoria que precisa, outra parte vêm de seus fies corvos Huginn e Muninn que fazer as vezes respectivamente de pensamento e memória, uma vez que ele não pode estar em todos os lugares, mas busca saber do que ocorre nos nove reinos. 

Também do seu trono Hliðskjálf ele avista os nove reinos e assim sabe para onde ir e o que procurar, interessante que esse comportamento de Fjölnir ao sentar em um lugar alto para buscar ver locais distantes nos remete a práticas de Seiðr que ele teria aprendido com Freyja, conforme o próprio Loki delata. Entre os demais companheiros dele estão os lobos Geri e Freki, respectivamente que fazem a vez de consumir tudo aquilo que poderia ser alvo do desejo mas não necessariamente da prioridade de Óðinn, mesmo por este não se alimentar mais de comida que deixa para os seus lobos, mas vive de vinho conforme relatado no Gylfaginning, logo o vinho provavelmente seria a bebida mais adequada para ele em um Blót. Por fim Reiðartýr na figura de psicopompo temos ele cavalgando Sleipnir o filho de oito patas de Loki através dos nove mundos para buscar os mais variados objetivos, mesmo com toda a sua sabedoria, um deus muito mais de ação do que de palavras.

Falando em ação Váfuðr em muitas histórias é relatado como um andarilho, algumas vezes na companhia de Hœnir e Loki, outras vezes só, histórias interessantes que costumam trazer proveito para si de alguma forma, destas a busca pelo Hidromel da Poesia que pertencia ao jötunn Suttungr, mas graças a sua engenhosidade, traço marcante do comportamento de Grímnir (seja através de seus disfarces ou da forma como trai a confiança dos desavisados), ele consegue trazer a bebida para os deuses e para a humanidade me forma de poesia. Apesar de seu filho Bragi, Sviðurr é de uma sabedoria ímpar e não é muito difícil imaginar que Skalds e Líderes da nobreza busquem uma identidade maior com esta divindade que detêm em suas mãos a guerra e a morte, a realeza e os enforcados, as runas e a magia, a loucura e a poesia.

Ele começa as guerras que outros vão lutar e leva a vitória sem se expor a própria morte, ele deixa alguém tomar conta dos mortos, mas sempre participa da Caçada Selvagem, ele é um pai, mas está longe de ser caridoso e amável, mesmo sendo o pai de todos. Ele é um líder, entretanto sabe se mostrar humilde quando precisa de algum conhecimento que só outra pessoa pode conceder a ele. Ele da à vitória assim como tira a vida dos que ganharam batalhas em nome dele, ele é o deus dos nobres, mas nem só de nobres é feito seu eterno exército, ele é um guerreiro e um diplomata, um líder e um pária, ele é honrado e é traiçoeiro, um xamã revelador de verdades que se oculta em inúmeros disfarces, detentor de muitos nomes. Ele é Óðinn...

Espero que tenham aproveitado e que ajude em possíveis buscas pessoais num melhor entendimento das facetas desta complexa divindade, deixei vários nomes para que possam estudar melhor os vários lados que este Æsir apresenta, alguém que está longe de ser definitivamente resumido em qualquer postagem. Espero que todos tenham uma boa semana e até semana que vem. Far Vel!

- Heiðið Hjarta.